Pular para o conteúdo
Arquivo dos Pergaminhos

12 de julho de 2026 · por Equipe Editorial

Como uma IA leu um pergaminho carbonizado de 2.000 anos sem abri-lo

O passo a passo técnico — em linguagem simples — de como tomografia 3D e redes neurais leram os Pergaminhos de Herculano sem desenrolá-los.

Ilustração de um rolo de papiro atravessado por linhas de escaneamento

Quando o Vesúvio entrou em erupção em 79 d.C., a biblioteca da Villa dos Papiros virou um depósito de cilindros de carvão. Abrir qualquer um deles fisicamente significa destruí-lo. Então como, em 2023, o mundo leu as primeiras palavras de um rolo fechado?

Passo 1 — Fotografar por dentro (sem abrir)

Os rolos foram levados a um acelerador de partículas (síncrotron), que gera raios-X potentes o bastante para produzir uma tomografia 3D em altíssima resolução do interior do rolo — camada por camada, como um exame médico levado ao extremo.

Passo 2 — Desenrolar no computador

Um software mapeia a superfície espiralada do papiro dentro do volume 3D e a “achata” digitalmente — técnica chamada de desdobramento virtual (virtual unwrapping), desenvolvida pela equipe de Brent Seales na Universidade de Kentucky.

Passo 3 — Encontrar a tinta invisível

Aqui estava o grande obstáculo: a tinta de Herculano é à base de carbono, quase indistinguível do papiro carbonizado nos raios-X. A solução foi treinar redes neurais para reconhecer o padrão sutil de “craquelado” que a tinta deixa na superfície do papiro — algo que o olho humano não percebe nas tomografias.

Passo 4 — Ler, revisar, premiar

O Vesuvius Challenge transformou o problema em competição aberta: dados públicos, prêmios em dinheiro e milhares de participantes. Em outubro de 2023, Luke Farritor leu a primeira palavra (porphyras, “púrpura”); meses depois, o Grande Prêmio revelou mais de 2.000 caracteres de um texto epicurista. Toda leitura passa por revisão de papirólogos antes de ser divulgada.

Por que isso importa

Estima-se que centenas de rolos permaneçam fechados — e talvez haja mais sob a Villa dos Papiros, ainda não escavados. Cada avanço da técnica aproxima a hipótese mais empolgante da filologia moderna: recuperar obras perdidas da Antiguidade que nenhum ser humano lê há dois milênios.


Fontes: Vesuvius Challenge (scrollprize.org, dados sob Creative Commons — conferir licença por recurso); preprint arXiv:2606.29085. Acesso em 13/07/2026.

Compartilhar:WhatsAppX (Twitter)Facebook

Pergaminhos citados neste artigo

Cartas do Arquivo

Uma carta ocasional com novos pergaminhos, descobertas e bastidores da pesquisa. Sem spam.

A inscrição ainda não está ativa — estamos configurando o serviço de envio. Volte em breve ou acompanhe pelo feed RSS.